MEMÓRIA EM FICÇÃO EM NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM
E EM CADERNOS DE LANZAROTE
Toda viagem é imaginária porque toda viagem é memória.
José Saramago
Contar os dias pelos dedos e encontrar a mão cheia.
José Saramago
Tanto Navegação de Cabotagem, de autoria de Jorge Amado, como Cadernos de Lanzarote, de José Saramago, podem ser considerados, à primeira vista, como “livros de memórias”,pois , como diz o Escritor baiano no Prefácio da obra, “ As notas que compõem esta navegação de cabotagem ( ai quão breve a navegação dos curtos anos de vida! ), à proporção que me vinham à memória, começaram a ser postas no papel a partir de janeiro de 1986 / ... / “ [1]. Daí em diante, Amado parece escolher, aleatoriamente, ao sabor da memória, transmutada em recordação, os fatos que virão a ( re ) criar a sua viagem pelo passado e pelo presente. Saramago é mais conciso: dá início aos seus Cadernos com uma pequena advertência ao leitor, na qual a questão da sinceridade é primordial, e constrói um diário em que, muitas vezes, a memória parece estar a serviço a ficção.
Embora o texto de Jorge Amado tenha começado a ser escrito em 1986 ( foi publicado em 1992 ), suas primeiras páginas encontram-no em Moscou, em janeiro de 1952, quando para lá se dirigiu a fim de receber o Prêmio Internacional Stalin da Paz. Um pouco mais adiante, e lá está ele, em 1986, em Nova York, preso à cama de um hotel, com pneumonia, impossibilitado de comparecer ao Congresso Internacional do Pen Club. Depois, volta à Paris de 1949, e por aí segue o livro, aparentemente acompanhando o acaso, sem precisão de datas e nomes e, mais ainda, permeado de reflexões e de anedotas do Autor, sempre destacadas em itálico, sem marcação cronológica, como se fizessem parte de um canto especial da memória, próximo do coração,onde os limites ( a exemplo do que acontece com grande parte dos nomes de mulheres, reduzidos a Maria ) são transpostos e os afetos sobem para primeiro plano:
/ ... / Não me arrependo da artilharia gasta em artigos e discursos, pronunciamentos para desmascarar a impostura, denunciar a agressão, a face do imperialismo é mesquinha e sangrenta.
Repito contudo a dois por três que os bens materiais mais valiosos que possuo, eu os devo ao imperialismo, pilhéria de gosto duvidoso ao ver dos puritanos. Em verdade eu os devo a meu trabalho – ao meu e ao de Zélia, não distingo nem separo: a casa do Rio Vermelho, na Bahia, a mansarda sobre o Sena, no Marais, em Paris.[2]
Ou, ainda:
Esse senhor Dorival Caymmi, o moço Caymmi, meu parceiro e cúmplice – se ele escrevesse escreveria meus romances, se eu compusesse comporia suas músicas --, ao me oferecer a famosa bolsa, reconhecia ter-me afanado uma quantidade de bengalas, além das que, de moto próprio, lhe ofertei: certa feita atravessei a Europa e o Oceano Atlântico levando na mão um enorme bastão de pastor do País de Gales, galho de árvore longo, pesado e espinhento. Dos muitos objetos surrupiados pelo cantor das graças da Bahia, só não lhe perdôo o rádio russo que eu trouxe de Moscou e dei a Paloma, ainda solteira. Dorival pediu emprestado para ouvir os jogos da Copa do Mundo de setenta, nunca mais Paloma pôs a vista no pequeno aparelho, de muita estática, mas ainda em bom estado. [3]
Saramago, por sua vez, como que acompanha o fluir dos acontecimentos e restringe a sua tarefa a observá-los e a registrá-los dia-a-dia: ora é um cão que apareceu à porta de casa e lá permanecerá; ora o encontro com escritores e palestras na Feira do Livro; ora os comentários a respeito da construção do romance Ensaio sobre a Cegueira; ora o recebimento do Prêmio Camões; ora a transcrição de trechos de comunicações e conferências realizadas neste ou naquele congresso; ora reflexões a respeito da arte da ficção, etc. Perpassa os textos do Autor o mesmo rigor crítico -- fruto de aguda capacidade de observação e de análise da realidade --, que encontramos em seus romances, o que mostra que, apesar de distante das grandes cidades européias, encontra-se ligado a todos os movimentos do homem do seu tempo, independente de raça e cultura. E mais, não descarta o compromisso do escritor com a realidade que o circunda, como se fosse ele / o compromisso / a obrigação primeira do artista assumi-lo na sua totalidade:
23 de Março
O que costumamos chamar “compromisso do escritor “não deveria ser determinado simplesmente pelo caráter mais ou menos “social”ou “socializante”da tendência, do grupo ou da escola literária em que se inscreveu ou em que o meteram. O compromisso não é do escritor como tal, mas do cidadão. Se o cidadão é escritor, acrescentar-se-á à sua cidadania pessoal uma responsabilidade pública. Não vejo aonde poderão ir buscar-se argumentos para eludir essa responsabilidade.[4]
Têm início, portanto, a partir da própria construção dos dois “livros de memórias”, as diferenças entre eles. Em Jorge Amado, encontra-se o pendor a transformar tudo em matéria presente, sem levar em conta a cronologia dos acontecimentos; tudo é presente, tudo é re-cordado, re-vivido , como se o romancista detivesse a capacidade de burlar a passagem do tempo, de tornar-se jovem de novo, de conversar com os mortos, de suspirar, outra vez, de prazer ou de dor. Exemplo disso é o estilo de Navegação de Cabotagem, em tudo obediente ao de seus textos ficcionais, onde sobem para primeiro plano a adjetivação abundante, seguida de numerosas interjeições a conferir à obra um ritmo dinâmico, palpitante, os diálogos vibrantes e bem-humorados:
– Tu queres me convencer, António, que jamais tu e tua tia chegaram às vias de fato?
– Primeiro não somos eu e minha tia, são o personagem e a Suzana, tia dele. Mas, ainda que fôssemos eu e a tia, posso te garantir que tudo não passou de ternura, nada além das cosquinhas.
– As cosquinhas, os cafunés, os toques, os beijinhos, os fornicoques, tudo platônico?
– Tudo.Mais pura e inocente que tia Suzana nunca houve.
António Alçada Batista fala sério, o ar de frade imaculado. Acredite quem quiser, eu hein! Não sou daqui, não conheço os costumes locais, os hábitos de cama, na Bahia tia Suzana não escapava.[5]
Em Cadernos de Lanzarote, encontramos um Escritor que viaja por rumos diversos daqueles palmilhados nos seus romances mais conhecidos, principalmente a partir do Memorial do Convento. A cronologia dos fatos, à exceção de um ou outro dia que não consta dos Cadernos, é seguida à risca, iniciando-se em 15 de abril de 1993. O estilo do romancista português não apresenta , como se está acostumado, a reutilização criativa dos sinais de pontuação: para além do ponto final e da vírgula, surgem os pontos de interrogação e exclamação, as reticências, os travessões. Os rigorosos períodos compostos por subordinação deixam entrever aquele que ultrapassa as fronteiras do contador de histórias para refletir sobre e analisar a realidade (e a ficção) de tal forma parece simultaneamente inserido nessa realidade e fora dela.:
11 de Maio.
Castelo de Praga, visita turística obrigatória. Calhou ser a ocasião de um render da guarda, cerimônia que nunca consegui tomar a sério, precisamente por causa do ar seriíssimo que põem os participantes, sejam eles militares ou civis. Os passes mecânicos da tropa, a reverência basbaque dos assistentes, exasperam-me ou dão-me vontade de rir, consoante o estado de espírito. Também pode suceder que caia numa enorme tristeza: é quando penso que aqueles bonecos de engonços (respeito as pessoas que são, mas não os gestos que fazem) irão, talvez, um dia destes, de alma aterrada e carne despedaçada, tornar-se subitamente humanos, terrivelmente humanos, como só se é na morte.[6]
As afirmações acima podem conduzir a conclusões apressadas, segundo as quais o Escritor brasileiro, ao registrar suas “memórias”, se visse preso às cadeias da ficção, que lhe impediriam de transitar livremente pela realidade empírica. Por outro lado, Saramago, ao libertar-se das amarras ficcionais, estaria à vontade para cumprir as exigências de um diário. Entretanto, cada um dos livros, por si só, revela que, em muitos casos, a memória foi traída pela imaginação, cedendo lugar à especificidade da literatura, o que confirma as palavras iniciais de Saramago no Caderno I: “O olhar do espelho. Sujeito-me portanto ao risco de insinceridade por buscar o seu contrário.” [7] Ambos os romancistas, em determinados passos, inventam a sua própria memória e constróem frações de um outro mundo , experenciado apenas por intermédio da imaginação:”Por maiores esforços tenha feito, jamais consegui localizar no céu as estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul – uma de minhas frustrações: todo mundo vê, será que vê?” [8] Memória e ficção embaralham-se de tal maneira que o leitor, tantas vezes enredado pelas marcas cronológicas, crê no que é, mais uma vez, invenção, e acredita estar partilhando da intimidade do Escritor. Basta atentar para as numerosas perguntas feitas a Amado ou a Saramago durante as várias entrevistas que concederam, e os exemplos multiplicam-se à exaustão: Por que seu cachorro tem o nome de Camões? As personagens do seu livro existem mesmo? O senhor escreve seus romances de uma vez só ou corrige cada uma das partes? A sua mulher interfere na sua produção ficcional?, etc.
Cuidadosos com a sua imagem frente aos leitores, vêm, de parte a parte, em primeiro lugar, as justificativas: "Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!”[9] Ou, no dizer de Saramago:”Escrever um diário é como olhar-se num espelho de confiança, adestrado a transformar em beleza a simples boa aparência ou, no pior dos casos, a tornar suportável a máxima fealdade.” [10]
Para além daí, aos relatos das histórias do cotidiano mesclam-se às preocupações de ambos pelo seu ofício, ao qual se dedicam em tempo integral pelo transcorrer dos anos. Como não poderia deixar de ser, o leitor desempenha, nesse contexto, papel de capital importância. Jorge Amado tem plena consciência de que, uma vez fora de suas mãos, colocado o ponto final, a obra pertence a outrem:
Para mim meus romances só existem enquanto os escrevo, ao colocar a palavra fim ao pé da página, o romance que me consumiu o juízo e me comeu as carnes deixa de existir – não é bem isso: continua a existir, mas já não é meu. Passa a pertencer aos outros: editores, críticos, tradutores, leitores, aos leitores sobretudo. [11]
Continuando, o Autor de Gabriela acrescenta: “ Há quem diga que o / escrever / faço bem, há quem diga que o faço mal, eu o faço o melhor que posso, não busco outra ocupação, pois não sei fazer mais nada. “[12] O leitor é deixado à vontade para a leitura e o narrador o pega pela mão para, juntos, acompanharem a trajetória das personagens.
Saramago, por seu turno, mostra, numa primeira instância, certa inclinação no sentido de compreender e deslindar as intrincadas relações entre o Escritor, a obra e o público:
27 de Fevereiro
Pergunto-me se o que move o leitor à leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa invisível, mas onipresente, que é o autor. O romance é uma máscara que oculta e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Se a pessoa que o romancista é não interessa, o romance não pode interessar. O leitor não lê o romance, lê o romancista. [13]
Em seus romances, contudo, Saramago não deixa o leitor em paz: convoca-o, o tempo todo, a jogar com a criação, de tal maneira que a leitura, à semelhança de um móbile, vai-se modificando de acordo com a participação e a perspectiva em que se coloca o leitor. Não é diferente o que ocorre nos Cadernos; o dia-a-dia do Autor várias vezes é submetido à incondicional interferência do leitor e só a ele é facultado dar sentido ao cotidiano:
15 de Janeiro
Espero que o bem-intencionado crítico, tendo refletido sobre a profundidade do asserto, não se esqueça, com idêntica circunspecção, de mencionar a fonte, salvo se, desta vez, tomado de súbita desconfiança ou de científico escrúpulo, se decidir a perguntas: “Que diabo de Livro dos Conselhos é este?”
16 de Janeiro
O Livro dos Conselhos não existe. [14]
As palavras acima são as únicas referentes à data de 16 de Janeiro. Que espécie de diário é esse, perguntaria o leitor, composto tantas vezes por uma só frase e que, ademais, responde a uma questão imaginária? Cabe a ele, leitor, procurar as prováveis respostas, perdidas no fundo da memória, ocultas entre os meandros da ficção.
Para concluir, deve-se ter em mente que nem Jorge Amado nem José Saramago limitaram-se à reprodução dos eventos do cotidiano nas duas obras ora em foco. A construção dos textos, ao repetir o estilo ficcional de cada um ou não, denuncia que a estrutura própria do diário se constitui em armadilha para o leitor desprevenido, que crê residir a explicação dos romances na biografia do Autor. Cautela, pois.
Referências Bibliográficas:
AMADO, Jorge. Navegação de Cabotagem. Rio, Record, 1992.
SARAMAGO, José. Cadernos de Lanzarote. Lisboa: Caminho, 1994, vol. I.
_____. Cadernos de Lanzarote. Lisboa: Caminho, 1995, vol. II.
_____. Cadernos de Lanzarote. Lisboa: Caminho, 1996, vol. III.
[1] Amado, 1992: I. Grifo meu.
[2] Idem, ibidem:67.
[3] Idem, ibidem: 37.
[4] Saramago, 1996: 75. Grifo meu.
[5] Amado, op.cit.:34.
[6] Saramago, 1995:113. Grifo meu.
[7] Saramago, 1994:10.Grifo meu.
[8] Amado, op. cit.: 301.
[9] Idem, ibidem: IV.
[10] Saramago, op. cit.:.9
[11] Amado, op. cit.: 247.
[12] Idem, ibidem.
[13] Saramago, 1995:60.
[14] Saramago, 1996:20-21.